15/03/2026

Ides of March

Dizem que quem é vivo sempre aparece e dizem que, sempre que eu volto, eu inicio meu texto com essa frase. Porque, aparentemente, eu continuo viva e continuo a aparecer. Felizmente, creio eu.

Muita coisa mudou em um curto espaço de tempo. Ou seja, trago novidades. Nem todas boas, mas o saldo geral tende a ser positivo. Ao menos no que tange saúde mental, as coisas andam bem. Ok, talvez não bem, mas definitivamente melhor que antes.

Eu terminei meu namoro. Depois de 3 anos de indas e vindas, decidi que aquele relacionamento não fazia mais sentido pra mim. Não no sentido de que deixei de gostar dele nem nada assim, mas no sentido de que estava me fazendo mal, mesmo. Não quero entrar em detalhes porque não vejo necessidade (ao menos não agora), mas é fato que aquele relacionamento acabou comigo em diversos aspectos. Quero deixar claro que não era de todo ruim, até porque se fosse eu não teria insistido por 3 anos, mas enfim. O término foi em outubro mesmo e desde então estou me recuperando, tenho momentos em que sinto muita raiva, ou muita angústia, ou muita alegria. É um luto bem bizarro.

Desisti da clínica autônoma. Sinto que 2025 me fez me desfazer de tudo aquilo que estava fadado ao fracasso na minha vida, e essa história de clínica autônoma foi mais uma dessas coisas. A quem eu estava tentando enganar? Esse caminho simplesmente não era para mim. Não entenda errado: eu amo atender pacientes. O problema é que, sendo autônoma, eu tinha que lidar com todo o resto também. Eu queria ser psicóloga, não uma empresa inteira. Quem sabe, um dia, se eu tiver dinheiro, eu volto. Por enquanto, I'm out.

Virei tabagista (for real this time). Eu fumo desde os meus 16 anos, mas ao longo desse tempo todo, eu parei várias vezes. Já cheguei a ficar uns 2 anos sem fumar, por exemplo. E, nesse tempo todo, eu não costumava fumar todo dia. Porém o final de 2025 foi extremamente desgastante para a mente do palhaço e, quando vi, estava fumando uma carteira por dia. Desde lá já consegui diminuir o ritmo, mas sigo fumando todos os dias e preciso comprar carteiras novas com alguma frequência. Quero parar, claro. Acho que todo fumante quer, no fundo. O difícil são os momentos de espera: enquanto espero o ônibus, no intervalo do trabalho, aqueles momentos em que não tem nada pra fazer e não dá tempo de fazer mais nada de útil... Não acender um cigarrinho nesses momentos parece impossível. Ugh.

Fiz 31 anos. Yay?

Arranjei emprego. Estou de volta no atendimento ao cliente, e dessa vez eu também atendo telefone (diferentemente da última vez, que era só email). Não é tão ruim quanto parece, pra falar a verdade. Eu genuinamente gosto de trabalhar atendendo pessoas e ajudando-as a resolver seus B.O.s, sejam psicológicos ou com algum produto que a empresa oferece. Acho um trabalho mil vezes mais digno do que diversos outros que existem capitalismo afora.

Show do Alesana. Minha banda da adolescência, Alesana, esteve em São Paulo no último dia 28 e eu fui assistir ao show. Pretendo falar mais sobre isso em post a parte, mas queria dizer apenas que foi mágico. Obrigada, vida.

Partidas e chegadas (e mais partidas). Nesse meio tempo, perdi amizades, reconectei com amizades, fiz novas amizades. Acho incrível como a vida tem esses movimentos e fico feliz demais de poder participar de tudo isso. A impermanência é igualmente assustadora e fascinante. P.S.: Fernanda, volta pra Curitiba. Você faz falta.

Creio que seja isso que ficou perdido no tempo enquanto eu sumi daqui. Sinto falta de escrever e postar, mas sinto que precisei desse tempinho afastada (elas sempre dizem isso..). Ando buscando equilíbrio. Tô fazendo Ho'oponopono e meditação guiada, falando menos palavrão, sabe? Alinhando meus chakras, mas tem vezes que eu só taco o foda-se e ajo igualzinho os cara.

02/07/2025

O dia que eu fiz um epub

Eu gosto de ler. Acho que já deu pra perceber pelo tanto de vezes que falei nos últimos tempos que, no ano passado, eu consegui ler 50 livros. Porém, muitas das coisas que tenho interesse em ler são as famosas novels chinesas, que são publicadas em sites que são uma espécie de wattpad chinês, então eu não tenho como acessar essas novels pelo meu Kindle (que virou meu modo preferido de leitura (na realidade eu sempre preferi ler no digital, já li muitos livros no computador, celular e tablet, mas um e-reader é definitivamente a melhor experiência)).

Até aí tudo bem porque, apesar de eu estudar há mais de 5 anos, eu não sei ler chinês. O meu nível de chinês é bastante básico, pra se virar numa viagem e só, então acabo contando com a boa vontade de tradutores amadores para ter acesso a essas novels.

E aí que tá a questão: esses tradutores não compartilham essas novels em um formato legal como .epub, ou até mesmo .pdf tava bom. Não, não, eles postam cada capítulo em um blog! Ou seja, uma novel é composta por diversas postagens, e se eu quisesse ler no Kindle, eu teria que ir lá, com toda a calma do mundo, copiar uma a uma e colar num editor de .epub. Entendo que os tradutores fazem isso por diversos motivos, dentre eles impedir (ou ao menos dificultar) o compartilhamento do seu trabalho sem os devidos créditos ou até mesmo ver pessoas cobrando pelo seu trabalho, e acho que os tradutores estão certos. Mas ai, pobre de mim, que só quero ler no meu Kindlezinho...

Eis que eu descobri que o meu problema era um não-problema. No sentido de que eu poderia, sim, conseguir fazer um .epub pra mandar pro Kindle. Eu só precisava da ajuda de uma cobrinha querida... Me aventurei novamente em Python!

Com a ajuda de uma biblioteca chamada Selenium, eu consegui fazer um script para extrair os textos das postagens e salvá-los em arquivos .txt de forma automática, sem precisar ficar entrando em cada página, copiando e colando o conteúdo. Aqui vale lembrar que o .epub nada mais é do que uma espécie de pasta comprimida com vários arquivos dentro, e cada capítulo de um livro é um arquivo dentro dessa pastinha, mas esses arquivos são no formato .html (ou .xhtml). Por isso, eu precisava converter o .txt para .html, e até aí é moleza, né? A questão é que o .txt não tem formatação nenhuma, enquanto o .html é um arquivo cheio de tags para formatar corretamente o conteúdo. Como resolver isso?

Python de novo, oras! Mais um mini scriptzinho e consegui converter todos os arquivos .txt em .html com as tags tudo certinho! A partir daí foi só abrir o Sigil, um programa open-source de edição de epubs, importar os arquivos, polir a formatação dos capítulos, criar o sumário, colocar a capa e voilà!

Agora poderei ler uma novel que estou querendo ler há muito tempo porém acabava sempre deixando pra lá porque só podia ler no site dos tradutores. E, antes que perguntem, eu não vou de forma alguma disponibilizar o arquivo para ninguém. Fiz isso apenas para o meu conforto e respeito o trabalho dos tradutores!

(Gostaria de dedicar este último parágrafo para agradecer minha amiga Ceci pela ajuda com Python, essa ideia não teria se tornado realidade se não fosse por ela!)

25/06/2025

Pruuu

A população de pombos na vizinhança cresceu muito rapidamente no último ano e recentemente eles descobriram que o peitoril das janelas é um ótimo lugar para descansar. O problema que uma das janelas é a do banheiro e aparentemente agora eu não tenho mais privacidade para tomar banho.

E sabe o que é melhor? Esse animal, além de cagar todo o peitoril da janela, ainda jogou uma gillette que estava em bom estado janela afora. 👍

19/06/2025

Voltando à normalidade: últimos draminhas

No ano passado, eu acabei desenvolvendo um hábito de leitura que me permitiu ler mais de 50 livros (algo muito fora da curva para uma pessoa que, até então, lia em média 2 ou 3 livros por ano), e com isso deixei completamente de lado as mídias audiovisuais. Não tinha paciência pra nem tentar assistir alguma coisa, então passei muitos meses sem assistir nada direito (a menos que estivesse acompanhada, aí era mais fácil).

Nessa época, senti muita falta dos dramas chineses, mas estava sem saco para procurar algum que quisesse assistir, e ainda tinha cometido o erro de começar um drama que ainda estava indo ao ar (The Double), então eventualmente parei de assistir antes de chegar ao final.

Eis que, nesse tempo que passei sem o antidepressivo, estava com muito mais dificuldade para focar nas leituras, então acabei voltando para as produções audiovisuais e, é claro, já corri atrás de assistir alguns cdramas.

Consegui terminar The Double, embora tenha demorado para pegar no tranco. Não é muito o meu tipo de drama, porque é muito realista: são intrigas políticas, esquemas contra o imperador, guerras etc., e apesar de ser bem interessante, no que tange esses dramas "de época"*, eu prefiro aqueles que tem elementos de fantasia, como os xianxia ou xuanhuan.

Portanto, assim que terminei The Double, já fui procurar alguma coisinha mais nesse estilo. Também queria algo mais "leve" porque The Double é definitivamente bastante angustiante, então tentei achar algo que tivesse elementos de comédia também.

Foi assim que cheguei em Love Game in Eastern Fantasy (disponível na Netflix). O primeiro episódio já me deu exatamente a impressão que eu estava procurando: um drama bobinho de transmigração em que uma personagem do mundo real vai parar em um mundo de fantasia de uma obra que estava consumindo e precisa se virar pra fazer as coisas acontecerem.

A personagem principal, Ling Miao Miao (Esther Yu), transmigra para uma novel que acabou de ouvir e que estava prestes a criticar no Weibo (versão chinesa de xingar muito no twitter). Não apenas ela é pega de surpresa por essa transmigração, como também vai parar no corpo da principal antagonista da trama, que tem uma personalidade nojenta e um destino terrível. Aos poucos, ela vai mudando a narrativa e consegue desviar desse destino horroroso, mas ela ainda precisa lutar para que a história não seja completamente descaracterizada.

Porém, além de tudo, o "sistema" de transmigração propôs um desafio para que ela pudesse voltar ao mundo real: ela precisaria fazer o irmão da personagem principal da trama, o meio-demônio cruel Mu Sheng (Ding Yuxi), gostar dela.

É claramente um drama bem bobinho, eu me diverti muito assistindo. O final pode parecer meio esquisito para quem não está acostumado com as estruturas narrativas chinesas (e inclusive tem uma discussão sobre isso no fórum do MyDramaList), mas pra mim foi satisfatório. Além disso, o drama ainda traz uma mensagem bonitinha sobre amor próprio no final, sinto que saí não apenas entretida mas também com um olhar mais cuidadoso acerca de algumas questões.

Um crime o fato das pintinhas do Ao Ruipeng estarem escondidas nessa imagem

Depois, encontrei um shorts no YouTube que alegava ser uma lista dos dramas chineses de fantasia que "valiam cada minuto". Eu sinceramente sou cética com essas listas porque muita coisa que as pessoas gostam, às vezes, não é tão palatável pra mim. Porém, assistindo ao minivídeo, chegou um chamado Moonlight Mystique. Sinceramente? Eu escolhi assistir por motivos nada relacionados ao plot, se é que vocês me entendem. Risos.

Ok, falando sério, os motivos que me fizeram assistir foram o palavra Mystique (que não tem relevância nenhuma no plot mas ok), a Bai Lu como personagem principal (geralmente gosto dos dramas que ela faz, mesmo quando não gosto da personagem dela em si) e o Ao Ruipeng de cabelo comprido (motivo extremamente válido, é claro).

Esse drama conta a história de Bai Shuo (Bai Lu), uma menina humana que tem o sonho de se tornar imortal para agradecer um imortal que salvou sua vida e a vida de sua irmã quando eram crianças. Nessa quest de se tornar imortal, ela tenta várias práticas de cultivação, até que uma espécie de sacerdotisa (eu acho?) a encaminha para um bordel em que supostamente o dono seria um imortal disfarçado de comerciante. É nesse bordel que Bai Shuo tem o primeiro contato com Fan Yue (Ao Ruipeng), o rei demônio do Palácio da Lua Brilhante (eu acho que é assim em português? sei lá, assisti com legenda em inglês). A partir daí, a história vai se desenrolando de forma que Bai Shuo se torna cada vez mais envolvida nas brigas e animosidades entre demônios e imortais, causando vários danos colaterais e um destino impossível de desviar.

Eu gostei demais desse drama. A história em si é ok, mas eu criei uma conexão com os personagens que me deixou chorando em alguns momentos. O final do drama é meio amargo, apesar de não ser um final triste. O problema é que muita coisa teve que dar errado antes de dar certo e isso pode fazer algumas pessoas ficarem mais angustiadas do que felizes com o final, então entendo bem quem não gostou.

Mais recentemente comecei a assistir The Seven Relics of ill Omen, um drama dos tempos atuais mas que também conta com elementos sobrenaturais. É um drama de mistério no qual "relíquias do mau agouro" estão possuindo pessoas e as fazendo cometer maldades sapecagens malvadezas do tipo assassinato. Diante disso, um grupo de 5 jovens acaba se envolvendo nesse mistério e começam a ir atrás de cada uma das sete relíquias.

O grupo é composto por duas mulheres que tem um kung fu incrível (então prepare-se para lutas irrealistas), um rapaz que tem um passado militar (pelo que eu entendi) e dois queridos.

Dois queridos

Digo dois queridos porque sinceramente o papel deles no grupo ainda está meio difuso para mim, embora eu não os considere completamente inúteis. Eles são o alívio cômico do grupo, mas acredito que tem mais coisa aí.

Esse drama ainda está indo ao ar, mas ainda não alcancei o último episódio lançado e acredito que, antes de eu conseguir chegar lá, o drama já tenha sido completo. No elenco, contamos com Song Weilong, que já vi em algum lugar mas não lembro onde, Liu Haocun, Ao Ruipeng (de cabelo comprido novamente e fazendo um papel de boy lixo, claramente o meu favorito), Zhang Yichi e Wang Yiting.

Se você for olhar no MyDramaList, há comentários reclamando dos efeitos especiais do drama, mas eu sinceramente não ligo. Não tô dizendo que não é ruim: é que eu não ligo mesmo. Bitch pls, eu sobrevivi aos primeiros anos de NuWho e ao cachorro gigante de The Untamed, então eu claramente não sou exigente com efeitos especiais.

Uma coisa que pode deixar os espectadores desconfortáveis é a gordofobia casual que o personagem de Ao Ruipeng faz com o personagem de Zhang Yichi. Não é nada muito diferente da gordofobia casual que a gente vê na população brasileira em geral, mas ver isso escancarado no drama como se fosse algo normal me deixou meio chateada. Não que a gente no Brasil seja super diferente né, mas fica o aviso aí caso alguém queira assistir e se sinta incomodado com esse tipo de coisa.

Por fim, agora que retomei o hábito de ver dramas chineses, também retomei um pouco meus estudos de mandarim. Quando comecei a estudar, em 2019, o HSK (teste de proficiência oficial) era bem diferente e requeria bem menos conhecimento. Se não me engano, foi em 2021 que o HSK foi reformulado e, atualmente, é um teste beeem mais difícil. No HSK antigo, eu estaria no nível HSK 3, quase 4. No atual, eu caí para o 2 e ainda vai demorar um pouco para eu chegar no 3, porque agora, ao contrário de precisar saber 150 palavras para chegar ao nível 3, são necessárias setecentos e setenta e duas. Pau no meu cy. Tem sido divertido estudar, mas sei que estudando sozinha talvez eu não alcance a fluência nunca. E tudo bem. O importante é a gente gostar do que faz. :)

Obrigada a quem leu até aqui. Beijinhos.

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* A questão da nomenclatura dos cdramas "de época" é bem complexa na realidade, então vamos simplificar e chamar assim por aqui, ok?

09/06/2025

Me rehúso

Não sinto que tenho muito para falar, o que já disse aqui, num momento em que estava sofrendo abstinência do antidepressivo (e, claramente, com os pensamentos muito fora de ordem). Não diria que foi ruim. Esse tempo me ajudou a perceber melhor os efeitos do antidepressivo em mim, coisa que antes não percebia muito bem (anos usando medicamento, né. a gente esquece mesmo como era antes). Não sei dizer se estou melhor, se estou pior, só sei que estou retornando a respirar direito aos poucos e só Deus sabe onde vou parar a seguir.

O problema, acho, é justamente esse. A vida nos tira qualquer possibilidade de tentar algo diferente. Eu ando tão cansada, tão sem tempo, e a verdade é que minha cabeça está parando de funcionar. Eu estou acostumada a ter momentos em que meu cérebro simplesmente desiste de funcionar e eu só consigo ficar parada e chorar por horas, mas esses episódios tem se tornado cada vez mais frequentes (mesmo com antidepressivo).

A verdade é que eu não tenho mais certeza se eu serei um ser humano funcional algum dia. Não porque tem algo de errado comigo, mas porque a definição de "funcional" é tão distante do que eu consigo (do que a maioria de nós consegue, na realidade) que eu me pergunto se isso tá certo. Se era pra gente estar vivendo assim.

A gente sabe que não. A gente sabe que outras realidades são possíveis. Mas a vida nos tira não só o tempo e as possibilidades, como também a capacidade de organização e construção de meios alternativos.

Sinto que, atualmente, muitos de nós vivemos de esperança. Mas viver de esperança mata.

07/05/2025

Esquartejamento suspenso

Começa como uma névoa. Momentos em que a imagem se torna difusa nenhuma forma ou linha é precisa o bastante para compreender o que realmente está à frente. O caminhar é incerto e, por vezes, é possível ter um vislumbre da realidade. Como aquele breve momento em que se acorda de noite, sem se ter certeza de onde se está, sem saber ao certo se está tudo bem, mas aos poucos o quarto vai se tornando visível e, quando finalmente é possível se orientar, o sono se sobrepõe novamente. Ao perceber esse padrão, esses momentos se tornam mais como quando se consegue colocar a cabeça pra fora d'água e puxar o ar enquanto luta para não se afogar. Desespero. A consciência se torna um desespero.

É quando eles vêm e me puxam por todos os cantos, quando me arrastam de volta para seus esconderijos e me convencem que aquilo é meu lar. "Volte para casa", eles sussuram, mas esquecem que casa é um lugar no qual eu nunca me senti à vontade. Há também os que me puxam para fora, que não me arrastam apenas até o umbral, mas seguem me puxando para a estratosfera, também tentando me convencer de que aquele é meu lar. Mas todos, sem exceção, me tiram de mim. Me afastam de mim, me impedem de mim, me arrancam de mim.

E no fim eu não sou, não existe ar para respirar, ela não para de gritar no meu ouvido, e eu preciso gritar por ela, mas ninguém gosta quando eu grito por ela, e eu não gosto de gritar por ela, mas eu não posso gritar por mais ninguém, e eu não posso gritar de forma alguma.

Não há lar, não há névoa, não há água ou afogamento. Não tenho membros, nem olhos, e não posso falar. Se existe um centro, um ponto ao qual tudo converge, eu não consigo achar. Flutuo. Eu não estou aqui.

06/05/2025

Death is the only ruler and the only subject of desire

Eu não sei o que dizer. Eu não sei se tenho algo a dizer. Tudo que gostaria de dizer já foi dito ou será dito por outra pessoa que não eu. Nenhuma ideia é minha, nada é meu de fato, e isso não é necessariamente um problema, mas eu não quero ser uma impostora. Eu não quero falar o que não é meu. Não quero mostrar o que não sou. E eu não sou nada, se não um corpo vivo. Um corpo vivo que morre. E isso é tudo.

09/04/2025

Descobri que gosto de arroz

A Microsoft anunciou que pretende descontinuar o suporte ao Windows 10 em outubro de 2025 e desde então eu vinha recebendo "propagandas" (que mais pareciam ameaças) frequentes para que eu atualizasse meu computador para o Windows 11 o quanto antes.

Confesso que tem bastante coisa que não gosto no Windows e gosto menos ainda no Windows 11, mas acabei pensando que, ok, tanto faz. Tô há tanto tempo usando Windows e reclamando sem nunca nem tentar mudar nada que só aceitei que iria conviver com um sistema operacional paia.

Tudo porque 1) eu não sabia mexer em nenhum outro sistema operacional (tirando macOS, porque trabalhei por 6 meses em um Mac quando trampava para a Pinterest) e 2) joguinhos (não uma desculpa tão válida porque eu nem sou tão gamer assim).

Tentei fazer o upgrade para o Windows 11. Deu ruim.

O pc reverteu pro Windows 10 e eu não perdi nada, ufa. Fui tentar descobrir porque deu errado. Acontece que o Windows 11 tem uns requisitos pra lá de escrotos pra rodar numa máquina. Ele precisa que o processador seja de no mínimo sei lá qual geração, mas é uma geração recente, e o Windows 11 não rodaria em processadores mais velhos do que algum ano relativamente recente aí (não lembro qual).

A questão é que meu pc é de 2020 e nenhuma peça dentro dele é realmente velha (ainda). Tudo funciona perfeitamente bem, e depois fui vendo que muita gente está putassa com a Microsoft por querer fazer todo mundo atualizar pro Windows 11 sendo que em grande parte dos computadores perfeitamente funcionais o sistema simplesmente não roda.

Em suma, muita gente que quiser continuar usando o Windows com alguma segurança a partir de outubro de 2025 vai precisar fazer uns upgrades de hardware aí e, bem... Eu não tenho esse dinheiro. Vocês têm?

Nesse meio tempo, eu ganhei um curso de Linux. Pra quê?, você deve estar se perguntando, considerando que eu sou psicóloga e não trabalho com TI, então manjar de Linux tá meio que bem fora do personagem. E a resposta é bem simples: porque sim. Porque tecnologia é um dos meus interesses especiais e eu sempre ouvi falar sobre Linux e como ele é superior em muitas coisas. Inclusive já houve um momento alguns anos atrás que eu passei cerca de 2 anos usando um notebook com dual boot de Windows e Linux porque o hardware do notebook era extremamente fraco e para rodar o Windows era um parto, enquanto o Linux rodava suave feito manteiga (essa expressão não funciona em português, né? oh well, azar)

Em suma, eu juntei memórias de uma experiência boa com a minha curiosidade natural e resolvi aprender essa joça de Linux. O curso que eu fiz era muito mais focado em servidores, porque obviamente era um curso voltado para o mercado de trabalho, mas grande parte do curso ensinava o basicão mesmo, como por exemplo: instalação do sistema, criação de usuário, manipulação de arquivos, criação de um servidor de arquivos local, scripts de infraestrutura, entre outros. Tudo isso através do terminal, como um verdadeiro hacker (só que de hacker não tem nada porque eu tava usando.. o meu próprio sistema... ??)

Resumindo: perdi meu medo de terminal e de Linux. Resolvi instalar um dual boot no meu pc pra pelo menos ter o Linux ali caso precisasse. Tentei instalar o Ubuntu e eu não sei o que caralios eu fiz que eu simplesmente deixei meu pc inutilizável. Eu fui seguindo um tutorial do Diolinux e simplesmente deu ruim, enquanto pra todo mundo que seguiu deu certo. Eu real não sei o que rolou, mas meu HD se descaralhou inteiro e meu SSD tava olhando pro outro lado como se não fosse com ele.

Fiquei triste, pensei em mandar pro conserto, pra algum técnico que sabe de fato o que está fazendo consertar a cagada e instalar... o Windows 10 de novo. Aquele Windows 10 que está com os dias contados, sabe? Resolvi que não ia passar por essa humilhação (eu sei que não é humilhação nenhuma, mas eu gosto de drama) e decidi simplesmente formatar tudo e tacar alguma distro Linux sozinha, sem essa ideia idiota de dual boot. E os jogos? Ah que se foda os jogos. Depois eu me viro com isso, pensei, já que existem sim gamers de linux.

Depois de pesquisar um pouco, escolhi usar a distro Pop!_OS. Minha escolha se deu porque: 1) o Diolinux fala bem e querendo ou não ele é referência e 2) eles tem uma iso específica para quem tem placa de vídeo da Nvidia, que geralmente é meio inimiga do Linux (por questão da própria Nvidia não investir em compatibilidade mesmo, pelo que entendi), então pensei que seria mais fácil instalar uma distro que já estivesse preparada para lidar com essa questão ao invés de instalar qualquer outra e ficar me matando pra tentar instalar algum driver.

Deu super certo.

Este é meu pc rodando o Pop!_OS, depois de algumas customizações. Aproveitando que estava usando uma distro Linux com o desktop Gnome*, fui olhando maneiras de customizar no Gnome-Look. Instalei alguns negócios para emperiquitar meu desktop e ficou essa coisinha mó fofa aí em cima. A maior parte das customizações foram feitas só baixando arquivos do Gnome-Look, colocando na pasta certa do sistema e depois selecionando o tema desejado pelo Gnome Tweaks.

Fiquei feliz com o que vi, mas senti que ainda faltava alguma coisa. Sei bem que não sou usuária avançada de Linux e tudo que faço na área de tecnologia é puramente por hobby, mas senti que queria mais. Afinal de contas, sempre me venderam a ideia de que o Linux é bacana pela questão da customização, então resolvi ir atrás de mais informações. Foi aí que conheci os tilings window managers, que são softwares que criam uma maneira completamente diferente de você utilizar seu desktop, baseada principalmente em teclado (ao invés de mouse) e permitindo que você abra várias janelas simultaneamente que vão automaticamente se ajustando na tela como um mosaico. Não sei se essa explicação ficou clara, mas aqui vai um exemplo de um desktop com um dos mais famosos tiling window managers, o i3wm:

Assustador, não? Na realidade, não. Entendo que pra gente que tá acostumado com o Windows e essa coisa de usar as janelas em tela cheia ou ficar arrastando janelinha pra cá e pra lá (conhecido como floating window), esse negócio de janela em mosaico é meio esquisito mesmo. E esse exemplo também não é dos melhores, pois obviamente só tem coisa de desenvolver aberta. Mas é possível usar esses tiling window managers para criar desktops lindos, como os que a gente vê no r/unixporn, navegar na internet e fazer tudo que dá pra fazer num computador (contanto que você não faça questão de usar tudo em tela cheia).

Na hora de escolher qual tiling window manager eu ia usar, fui pesquisando pelos que tinham uma boa compatibilidade com a distro que estou usando e acabei dando de cara com o Qtile, que além de casar bem com o Pop!_OS, também é configurado em Python, que eu coincidentemente aprendi no último mês. Assim, de graça mesmo. Eu tava fazendo nada, tropecei e aprendi Python. Acontece, é a vida.

Fiz a instalação do Qtile, me acostumei a usar o teclado para controlar 90% do meu workflow no desktop e configurei ele bem bonitinho. O resultado é o seguinte (clique na imagem para ver em tamanho original):

Eu quebrei o código algumas vezes enquanto fazia essa obra de arte, mas no fim deu tudo certo e estou bem orgulhosinha! Essa barra no topo foi inteira feita no código (com a ajuda de bibliotecas, claro, não programei nada do 0) e, sinceramente? Eu tô apaixonada.

Se alguém quer saber como fica quando eu tô usando várias janelas ao mesmo tempo, vejam aqui um print de agorinha mesmo!

Claro que ele não tá tão bem configurado como os trabalhos da galerinha no r/unixporn, mas eu tô bem orgulhosa do que eu fiz! E, até o momento, não me arrependi nem um pouquinho de ter migrado para o Linux. Tô amando tanto a experiência que inclusive migrei para o Linux no meu notebook de trabalho, instalando nele a distro Fedora, que tem suas particularidades também, mas estou gostando bastante!

E os jogos, você se pergunta. Eu disse que ia pensar sobre isso depois, mas na realidade pensei nisso faz tempo e descobri que: tudo que eu jogo roda no meu pc com Pop!_OS sem problemas. Graças a inovações como o Proton da Steam e um aplicativo chamado Bottles, que utiliza um negócio chamado Wine para rodar aplicativos nativos do Windows no Linux, não cheguei a encontrar nenhum problema. Às vezes pode ter jogo que não roda, mas no meu caso todos os que eu jogo rodam sem problemas ou, no máximo, precisam de uns ajustes bem pequenos para conseguir rodar, então no fim das contas todos os motivos que eu tinha para continuar no Windows foram de arrasta.

Se você, assim como eu, tá de saco cheio das palhaçadas da Microsoft, recomendo dar uma pesquisada sobre Linux, as distros disponíveis, e ir amadurecendo a ideia de migrar. Dependendo do uso que você faz do computador, sendo bem sincera, o Windows não faz falta nenhuma. Além disso, maior parte das distros são inteiramente gratuitas, você consegue instalar em computadores mais velhinhos sem precisar fazer nenhum upgrade de hardware e mesmo assim, se você escolher a distro certa, vai rodar lisinho. Recomendo este vídeo caso você tenha algumas dúvidas mais gerais. (Inclusive recomendo muito esse canal se você gosta de tecnologia e é anticapitalista engual eu, heheh)

Bye bye, Windows. Olá, Linux.

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E o arroz? O que tem a ver com o post?

O nome desse processo de ficar fazendo alterações estéticas no Linux é ricing. É isso. Esse é o arroz. :)

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P.S.: Adicionei as configurações do meu Qtile em um repositório do github, caso alguém tenha interesse. Vale ressaltar que pra funcionar, precisa baixar também o qtile-extras!

* Longa história mas, basicamente, o Linux possui diversas interfaces gráficas diferentes, chamadas desktop environment. Algumas das mais famosas são Gnome, KDE, Cinammon e XFCE. Você pode escolher a que você mais gosta e instalar na sua máquina de forma meio independente da distro que você usa, mas pra isso geralmente você tem que manjar bastante de Linux para não quebrar nada no sistema. Em geral, se você quiser não ter muita dor de cabeça, apenas se acostume com o desktop environment que veio com a sua distro. Sim, eu sou masoquista. 

26/03/2025

¿Será que a otro ahora le cuentas tu día?

Estou viva, mas não estou bem.

Desde o último post, naquele tom desesperado, aconteceu muita coisa—algumas boas, outras péssimas. Não tive energia pra tentar voltar aqui falar algo. Pra falar a verdade, continuo sem energia.

Resolvi tirar o mês de março de férias antes que eu surtasse por causa daquele processo de burnout que estava desenvolvendo que comentei aqui em janeiro. Queria descansar, mas a realidade é que o mês de março foi tão agitado que eu não descansei quase nada. Mas ter tirado as férias não foi de todo ruim porque ele certamente seria mais desastroso ainda caso eu estivesse trabalhando normalmente.

Iniciei março me recuperando de seja lá o que me pegou no final de fevereiro que tirou minha capacidade de respirar. Não duvido que tenha sido covid, mas nenhum teste foi feito para ter certeza. Só tomei um monte de remédio e corticóide pra me recuperar da asma, mesmo.

Pouco antes de ficar doente, eu tinha ido para São Paulo, acompanhar meu namorado em um rolê no qual ele ia tocar. Foi a primeira vez que fui pra SP e não fiz o roteiro que sempre faço, que é ir na Liberdade e na Galeria do Rock, e depois ir pro show que me fez ir até lá pra começo de conversa. Talvez por isso também eu tenha gostado mais. Ficamos em um hotel na Vila Madalena, que foi uma experiência meio ruim pra falar bem a verdade, mas o bairro em si é uma delícia.

Como foram duas bandas no carro, não teve espaço pra eu ir junto, então fui de ônibus mesmo. Cheguei lá algumas horas antes do meu namorado, aproveitei pra dar uma voltinha no bairro, comprar comida para o café da manhã (porque no hotel não tinha) e parei pra almoçar em um lugar muito gostoso e aconchegante chamado No Ninho Comida Caseira. Por ser Vila Madalena, achei que o preço seria uma facada, mas sinceramente aqui em Curitiba teria custado a mesma coisa, se não mais. Pedi um combo que vinha uma refeição e de sobremesa uma rodela de abacaxi com mel e raspas de limão. Estava ótimo.

O rolê em si foi ótimo também. Foi o melhor show da banda do meu namorado, na minha opinião. O público era bacana e a casa de show muito melhor equipada do que as de Curitiba. Só o mosh que acabou me deixando com um baita hematoma na coxa, porque eu fiquei espremida em um canto do lado da parede para não participar e ainda assim o impacto acabou me fazendo bater com tudo na parede, onde tinha um cano bem na altura da coxa, risos. Doeu bastante na hora, mas nada insuportável.

Já em março, começamos com o carnaval em Laguna e meu aniversário. Não tinha ideia do que fazer para comemorar meus 30 anos, queria que fosse algo especial porque nunca nem imaginei que chegaria viva nessa idade, então ir para Laguna me pareceu uma boa ideia. Por eu estar na TPM, também foi uma viagem estressante, na realidade, mas teve ótimos momentos. Levei meu namorado e uma amiga para que passassem esse tempinho comigo e sou muito grata a eles por terem ido.

Na segunda semana de março, foi aniversário do meu pai, que também queria uma comemoração diferente porque estava fazendo 60. Ele fez uma festa bem legal, chamou muitas pessoas queridas, foi bem gostoso a maior parte do tempo. Até que teve um momento em que eu tive um meltdown.

Agora que tenho o diagnóstico de autismo, eu consigo entender esse descontrole que eu tenho às vezes, quando as coisas estão sendo demais e eu não tô aguentando. Eu sempre achei que era uma questão de regulação emocional, que eu precisava trabalhar melhor nisso, mas não importa quantos anos de terapia eu tenha feito ou quantas técnicas eu tenha aprendido, continuava tendo esses episódios porque, bem, eles não estão necessariamente relacionados à regulação emocional em si, mas à sobrecarga mesmo.

Ter um episódio desses é algo horrível e eu não desejo pra ninguém. É uma sensação de desespero e de perda de controle total, e por mais que o episódio dure de alguns minutos até uma meia hora (nunca durou mais que isso, pra mim), eu demoro muito tempo pra me recuperar emocionalmente.

Meus meltdowns envolvem choro, gritos e autoagressão. Esse último ponto é importante porque pra quem vê de fora e não leva em conta o quanto eu estou me machucando, pode achar que é só uma birra que eu tô fazendo. Mas não. Essa autoagressão é diferente de automutilação porque a automutilação é muito mais intencional, mesmo que seja feita num impulso, enquanto essa autoagressão é uma perda de controle mesmo. Dessa vez foi tranquilo nesse último quesito, fiquei com as mãos doendo por alguns dias, mas já tive episódios muito piores—incluindo um em que quase quebrei meu pescoço ao ficar me debatendo na cama e ter caído com todo o meu peso em cima da minha cabeça.

Desde então tenho tentado me recuperar desse episódio, mas não vou mentir que tem sido difícil. Entender a natureza desses episódios e saber que eles não são uma falha de caráter minha e que são coisas que vão continuar acontecendo porque, no fim das contas, eu vou ser autista pelo resto da minha vida, é algo que tem me deixado muito mal, de verdade. Eu sei que existem acomodações e que eu posso aprender maneiras para tentar evitar esses episódios, mas a verdade é que a gente não pode controlar tudo e eventualmente pode acontecer de novo, mesmo eu tomando todo o cuidado do mundo.

A verdade é que eu ainda estou aceitando o fato de que eu sou uma pessoa com deficiência. Eu sempre me vi como, sei lá, dramática e preguiçosa? Desequilibrada, surtada, louca? Controladora, agressiva? E por mais que isso possa ser exatamente a maneira que outras pessoas me vêem, pelo menos agora eu sei que nada disso veio por uma falta de caráter minha, mas por uma deficiência que eu tenho. E, sim, eu posso trabalhar isso, posso fazer acomodações, mas eu continuo sendo uma pessoa com deficiência e sempre serei. Sempre terei limitações que outras pessoas simplesmente não têm.

Como eu disse, março acabou sendo um mês de altos e baixos e ainda não sei direito como me sentir em relação a isso. Talvez não haja nada para ser sentido, só aceito.

Agora em abril voltarei a trabalhar, embora, como tenha dito, não tenha descansado de fato. Mas as contas não param de chegar e eu não sou CLT, então a realidade é que eu preciso voltar e eu que lute. Ainda estou de olho em vagas, concursos, pra ver se pelo menos consigo algo mais estável do que a clínica autônoma, mas por enquanto continuamos com o que conseguimos.

Espero que estejam todes bem. Beijinhos.

04/02/2025

Witchcraft for Wayward Girls — Grady Hendrix

A maternidade é uma coisa que me assusta, desde o momento da gravidez até o momento em que existe uma pessoa, já grande, com seus próprios valores e opiniões, e você fica se perguntando se você ainda reconhece aquela pessoa. No entanto, ao ler uma narrativa sobre adolescentes grávidas e bruxaria, não imaginei que poderia acabar tendo sentimentos tão ternos em relação à maternidade e tudo que a engloba.

Witchcraft for Wayward Girls (Grady Hendrix) se passa em 1975, em uma daquelas maternidades na qual adolescentes eram enviadas quando ficavam grávidas e seus pais contavam a todos que a filha apenas estava cuidando de uma tia doente ou que estava em uma colônia de férias para que ninguém soubesse a vergonha que era a jovem mulher estar gestando uma nova vida sem ser casada. A ideia dessas maternidades era manter a gravidez escondida, auxiliar no parto e garantir que o bebê fosse levado para adoção o quanto antes, para que a menina pudesse retornar a sua vida “normal” o mais rápido possível.

Neste livro, acompanhamos a história de Nova, que na maternidade recebe o nome de Fern (todas as meninas lá recebem um pseudônimo, pois ninguém deve trocar informações pessoais com ninguém, e ninguém pode saber que elas estiveram lá), quando ela é enviada para lá após engravidar do seu namoradinho aos 15 anos de idade.

Lá, ela faz amizade com Rose, que faz aquele papel de adolescente revoltada com o sistema e com o patriarcado, com Holly, uma menina ainda mais nova que ela e aparentemente muda, e Zinnia, uma menina negra que era tratada diferente das outras por conta do racismo da época (que era mais institucionalizado do que hoje em dia). Juntas, elas recebem de uma bibliotecária ambulante um livro que as ensina magia, tornando-as bruxas para se voltarem contra a maternidade da Senhorita Wellwood e todo o sistema no qual estão inseridas.

Nem todas as meninas da casa querem abrir mão de seus bebês e algumas carregam traumas pesados que fazem com que as meninas criem uma relação de cumplicidade entre elas enquanto navegam esse momento extremamente delicado longe de tudo e todos. O livro toca em temas como a força do desejo das meninas e qual o preço que elas aceitam pagar para conseguir aquilo que querem ou precisam.

Apesar de ser um livro escrito por um homem sem filhos (como ele mesmo diz na parte de acknowledgements), é nítido o quanto ele foi bem amparado por pessoas ao seu redor para que ele escrevesse uma obra respeitosa. Além disso, uma coisa que eu adorei é que a magia usada no livro não é uma sistema mágico inventado simplesmente para os propósitos fantásticos do livro. Os rituais que as meninas fazem tem sim uma base real, mostrando que o autor estudou magia de fato antes de escrever esse livro, embora ainda haja elementos fantásticos (como bruxas voando, por exemplo).

Fazia algum tempinho que uma leitura não me sugava desse jeito e estou imensamente feliz de ter dado uma chance para este livro (admito que o que mais me chamou a atenção foi a palavra “witchcraft” e a capa). Já tinha visto que ele tem sido muito bem falado, mas isso não quer dizer muita coisa porque conheço muitos livros bem falados que, pra mim, não foram nada demais, risos. No entanto, como disse, tive sentimentos bastante ternos pelas meninas e pelos seus desejos de manter os bebês, de impedir que esse sistema perverso se perpetuasse.

Devo admitir que não gostei muito da personagem principal, a Nova/Fern. Achei ela meio tontinha, meio sem personalidade, meio só indo com a maré grande parte do tempo, e até um pouco antes do final do livro achei ela uma baita de uma covarde. Felizmente há mudanças, mas até chegar nelas eu torcia imensamente pra que ela fosse pega pela antagonista.

Uma coisa que foi interessante na minha experiência de leitura é que li narrativas de partos enquanto eu mesma estava sofrendo de cólicas menstruais, então eu senti uma certa imersão, ainda que em menor escola e não muito agradável, risos.

Atualmente, o livro não possui tradução para o português, mas já vi que o autor tem algumas obras traduzidas (O Exorcismo da Minha Melhor Amiga e Como Vender uma Casa Assombrada), então fico no aguardo de alguma editora licenciar a obra por aqui.

29/12/2024

Por um 2025 mais gentil

2024 está acabando com 56 livros lidos e um coração mais pesado. Infelizmente, a morte não tira férias e tive um encontro com o luto novamente muito antes do que eu esperava, em plena véspera de Natal. Acontece que esse tipo de coisa não dá pra prever, ainda que a gente veja sinais, ainda que a gente saiba que pode acontecer a qualquer momento, ainda que a gente já esteja se conformando com a possibilidade... Saio de 2024 com uma bagagem extremamente diferente de todos os outros anos, e espero que logo eu consiga guardá-la no lugar e me assentar confortavelmente em 2025. Planos existem, mas, como diz Death Cab for Cutie, todo plano é uma pequena oração ao Pai Tempo. Vou orar muito, mais do que em qualquer outro momento da minha vida—pelo que está por vir, pelo que passou, pelas dores que tenho sentido e ainda hei de sentir, e pelas alegrias que, acredito, também virão. Tenho certeza que serei ouvida.

Que 2025 seja um pouquinho mais gentil com todos nós.

26/11/2024

Uma semana com tempo disponível é uma semana de muitos acontecimentos

Está chegando o natal, então eu tentei não ser mlk com você fazer um layout natalino. Faz muito muito muito tempo que não tento fazer um layout que não seja cravado de flexbox (pra tornar responsivo), então achei que seria super difícil, mas no fim nem foi. Ele tá responsivo, agora se tá bonito é outros 500. De qualquer forma, eu amo o Cinamoroll e decidi trazer ele como tema dessa época natalina por agora. Como também faz muuuito tempo que não mexo com photoshop, sei que a edição da imagem tá a coisa mais capenga do mundo, mas vida que segue. E também não sei se fiz algo de errado (juro que exportei para web!), mas a qualidade da imagem piorou bastante quando upei pro Blogger. Espero que não esteja tããão feio no monitor de vocês ;w;

Os últimos tempos tem sido bem tranquilos emocionalmente, pra falar bem a verdade. Finalmente os refrescos, né nom? Mas isso não quer dizer que tem sido tudo paradão. No feriado do dia 20 de novembro, meu pai simplesmente resolveu colocar um sofá diferente no ático, e pra isso tiveram que passar o sofá pela minha sacada... Foi um momento muito entrarão no meu quarto tirarão minha porta descaralharão minha casa inteira, mas no fim deu tudo certo! I mean, meu irmão chegou a sofrer um arranhão feio na testa que parecia até que ele tinha levado uma garrafada em briga de bar, maaas fora isso não tivemos maiores complicações (tirando, também, a chave da porta da varanda que entortou no meio dessa brincadeira toda).

Depois de todo esse sufoco, no final de semana eu descobri que estava tendo um festival de cervejarias artesanais não muito longe da casa do meu namorado e resolvemos ir lá. Olha, a ideia do festival era incrível, mas a execução foi meio que bem triste: você tinha que comprar fichas para conseguir comprar as cervejas. Até aí tudo bem, o problema é que cada ficha era R$ 3,00. Achei isso estranho, porque os preços eram relativamente fixos, tinha cervejas de R$ 12, cervejas de R$ 15, cervejas de R$ 18 e as mais caras eram R$ 24. Não era mais fácil fazer fichas específicas para esses valores fixos? Porque com fichas de 3 reais, quem ia comprar ficha ia ter que ficar fazendo conta na hora de comprar pra conseguir completar o valor do chopp e isso gerava um baita de um atraso na fila. Eu e meu namorado ficamos na fila uns bons 25 minutos, sabe. Mas ok, pra piorar ainda mais a situação: as tais fichas nada mais eram do que aquele recibo impresso na maquininha de cartão, então se uma pessoa pedia 10 fichas, demorava cinco séculos pra imprimir todas KKKKK ai, sério, que ideia de jerico esse sistema que eles fizeram! Mas no fim deu certo, depois de muito tempo eu finalmente tinha meu chopp em mãos!

Mango Sour Dream, da Fumaçônica

Curtimos a tarde experimentando cervejinhas (eu tinha parado de beber e acabei voltando, pretendo falar mais sobre isso em algum momento aqui no blog, aguardem), vendo as bandas do festival tocarem, conversando... Foi ótimo. De noite, fomos no Janaíno Vegan, um bar que fica no Largo da Ordem, pois ele iria tocar com sua banda lá. Eu sou suspeita pra falar, mas gosto bastante da banda dele, em especial o último álbum que eles lançaram. Sei que quem me lê geralmente não ouve esse tipo de música, mas caso alguém tenha curiosidade, aqui tem uma faixa que gosto bastante do álbum Lobos e Gados: Afogado.

No domingo eu já estava com a bateria social completamente drenada e precisando urgentemente me isolar como um animal ferido para me recuperar. Aproveitei esse tempinho mais eu comigo mesma e assisti um filme chamado Samba Traoré (disponível no Filmicca), um filme que tem como principal questão o conflito moral do personagem principal. Admito que fiquei nervosa grande parte do filme, pensando só no momento em que tudo ia dar errado e, apesar de saber que o Samba fez as coisas tudo errado, eu senti uma certa empatia por ele. Não sei, sem nenhum tipo de apologia ao crime aqui, mas sinto que o capitalismo me faz entender muito bem quem acaba indo contra a lei pra tentar melhorar um pouco de vida, sabe?

Enfim, enfim. Com certeza vou levar esse filme para a minha terapia porque minha angústia em relação ao capitalismo e ao estilo de vida que acabamos adotando sob suas garras são um tema recorrente nas minhas sessões, e sinto que talvez um dia eu tenha coragem de quebrar algumas correntinhas que me prendem um pouco num lugar de passividade diante disso tudo. Assim espero.

20/11/2024

Sobre me sentir pronta

Sinto-me pronta. Não para encarar todos os desafios de frente, virar minha vida de cabeça para baixo e resolver todas as minhas pendências. Mas eu me sinto pronta para sair da cama, tomar um café, iniciar meu dia de trabalho. Sinto-me pronta para lavar a louça, consertar a cortina, trocar os lençóis. Pronta para varrer o quarto, fazer mercado, pagar minhas contas, responder minhas mensagens. Eu me sinto pronta pra viver um dia de cada vez. Quem sabe, agora, eu possa finalmente pensar em ser adulta. Assim espero. Estou pronta.

06/11/2024

Momentos mágicos no tempo

Não consegui passar aqui antes do dia das bruxas, nem mesmo na data específica. Não vou me culpar não vou me culpar não vou me culpar. Viver é cheio de coisas e nem sempre as coisas saem como planejado. Na realidade, raramente as coisas saem como planejado, especialmente quando você já tem uma dificuldade de planejar as coisas e sabe que, se sair do planejado, entrará em uma espiral de estresse. Eu amo ser neurodivertida (sem sarcasmo aqui, eu amo quem eu sou, mas puta merda, sabe.)

Praticamente a única coisa comemorativa de Halloween que eu fiz foi atender assim:

Porém hoje eu estava percebendo que praticamente tudo que ando fazendo e consumindo tem um tema em comum, que inclusive se encaixa bem na temática dia das bruxas. Acabei resolvendo falar sobre isso, mesmo que atrasado. Acompanhem-me.

Leituras.

Uma magia destilada em veneno (Judy I. Lin) é um livro de fantasia chinesa e quem me conhece sabe que eu amo fantasia chinesa, mais do que qualquer outro tipo de fantasia. Meu interesse começou com os dramas chineses, mas atualmente estou sem paciência para assistir coisas, então parti para as leituras nesse gênero (e tem muita coisa boa!)

Peguei esse livro pelo Kindle Unlimited sem saber que é uma duologia (e é óbvio que o segundo volume não está disponível para alugar, heh). Enfim, o livro fala sobre Ning, uma moça de um vilarejo pequeno, filha de um médico e de uma mestre de uma Arte chamada Shénnóng, que acaba indo para a capital para concorrer a um favor da Princesa após a morte de sua mãe e o adoecimento de sua irmã.

Tem sido uma leitura bem interessante e eu adorei a fusão de chá e magia, como se a magia não fosse algo por si só, mas sim algo dependente da arte do chá. Gosto quando a magia tem essa "releitura" de ser uma espécie de Arte e não apenas um poder que a pessoa tem porque nasceu com ele ou o desenvolveu em algum momento na vida.

Witch Hat Atelier (Kamome Shirahama) também segue essa fórmula em que a magia não é simplesmente uma questão de talento, algo com o qual a pessoa nasce.

Claro, esse é o dilema da personagem principal logo no primeiro capítulo: ela queria muito ser uma bruxa, mas nasceu humana; até que um dia, por acidente, descobre que, sim, pessoas normais também podem ser bruxas e, na realidade, a magia é uma Arte que qualquer um pode fazer, mas que é mantida em segredo por questões de segurança.

O mangá é muito fofo e tem esse foco na relação entre as meninas do atelier de Qifrey, mestre que é encarregado de supervisionar o aprendizado das meninas durante essa fase de suas vidas. É uma leitura que estou fazendo há tempos e ainda estou longe de estar em dia com todos os capítulos lançados, mas estou adorando ainda assim. Interessante notar que comecei a ler mais porque achei o traço do mangá extremamente lindo, mas a questão da magia me conquistou rapidinho!

Jogos.

Cult of the Lamb.

Sempre quis jogar esse querido, desde que vi seu lançamento em 2022. Porém, eu nunca fui muito gamer, então acabei protelando por muito tempo, até que o destino me deu a oportunidade de jogar joguinhos com mas frequência e resolvi tentar investir um pouco nisso.

Descobri que grande parte da minha dificuldade com jogos era simplesmente a falta de um controle, hahah! Enfim, peguei o jogo emprestado de uma amiga na Steam, comecei a jogar e, como esperado, foi amor a primeira vista.

Neste jogo, você é uma ovelhinha que é sacrificada em um ritual de adoração da religião dominante no momento mas, após a morte, você encontra Aquele que Espera, uma entidade que devolve sua vida e, em troca, você precisa começar um culto para reverenciá-la. É um jogo que mistura a administração do culto com momentos de exploração e caçadas para conseguir mais seguidores e recursos para manter seu culto. Em geral eu tenho dificuldade com jogos que requerem luta então me afasto dos roguelikes/roguelites da vida, mas como esse não é o foco do jogo e eles acabam colocando umas opções de acessibilidade bem legais, acabo me divertindo bastante!

Até o momento já derrotei 3 dos grandes bispos e meu culto cresce cada dia mais, adoro cuidar dos meus queridinhos e fico genuinamente triste a medida em que o cemitério vai aumentando :( Mas é a vida, né. Faz parte.

Sucker for Love: Date do Die For.

Ok, me escutem. Talvez eu tenha tendências monsterfuck. Ok, "talvez" é um understatement. Eu já falei com meu namorado que um dia ele vai ter que se vestir de Babadook para satisfazer minhas fantasias (falei em tom de brincadeira, óbvio, mas vai que...)

Então quando um amigo me recomendou esse jogo em que eu posso paquerar uma deusa eldritch, é óbvio que eu precisei jogar. Depois eu descobri que o jogo é uma continuação de uma saga, mas não cheguei a jogar os outros. Enfim, amei fazer os rituais, tentar escapar do culto maluco que estava emprisionando a minha querida Rhok'zan e conquistar um final feliz em todos os capítulos. Recomendo muito pra quem, como eu, gosta de um romance meio ishquisito.

Cosmic Wheel Sisterhood.

Este foi o primeiro jogo que terminei na vida (pra vocês verem como eu realmente não sou gamer de jeito nenhum, uaheuahduah) e, olha, mexeu algumas coisas aqui dentro, viu? Não sei direito o que esse jogo tem, mas vi que muita gente sente a mesma coisa que eu.

Talvez seja a experiência de isolamento, a nostalgia, a saudade que é um sentimento sempre presente no jogo... Ou talvez seja porque todo mundo um dia sonha em fazer um contrato com uma entidade cósmica, não sei.

Neste jogo, você é uma bruxinha chamada Fortuna cuja especialização mágica é a divinação por meio de oráculos. Após ver um futuro desagradável para seu Coven, Fortuna é exilada por milhares de anos e, por conta da angústia, faz um pacto com Ábramar, um Behemoth, cuja invocação é algo expressamente proibido em seu Coven. Depois desse pacto, as coisas começam a mudar para Fortuna e ela cria seu próprio oráculo (sim, você pode escolher o design das cartinhas! as minhas sempre ficavam horríveis, tho) e retoma o contato com suas amigas mais antigas, além de se envolver com intrigas políticas do Coven novamente.

É um jogo muito relaxante, mas ao mesmo tempo a história é permeada de momentos angustiantes. Acho que é o jogo perfeito para nós, bruxinhas melancólicas.

Sinto em falar que acho que nenhum dos jogos citados está disponível em português, mas as leituras tem versões brasileiras oficiais! Enfim, obrigada pelos comentários no último post, agradeço muito quem leu até aqui ♡

06/08/2024

6 de agosto de 2024

Sigo viva, até que se prove o contrário.

Julho não foi tão terrível quanto pensei que seria, mas teve seus momentos, e agosto começou me massacrando de diversas formas. Pergunto-me quando virá algum alívio.

O sono anda bem—finalmente—por conta de um suplemento de melatonina em forma de gomas sabor morango. Também por conta dos remédios, que estão em dia. Mas a psiquiatra tem novas suspeitas, o que me coloca em uma posição de bastante angústia e ansiedade. Só o tempo dirá, mas um novo diagnóstico aos quase 30 anos certamente é pesado, considerando que tenho mais anos vividos diagnosticada do que não diagnosticada.

Por falar em diagnóstico, não aguento mais discussões de twitter sobre isso. A questão é que, naquele rede social, tudo tende sempre a ir para algum extremo, ignorando as nuances do debate. Dentro da academia, a gente raramente chega num consenso: a gente só critica, critica e critica. Prefiro assim. E prefiro que as pessoas recebam os cuidados necessários, independente de diagnóstico. O problema é que, no mundo em que vivemos, precisamos sempre de um papel documentando certinho onde que estamos quebrados pra conseguir sermos reconhecidos como merecedores de cuidados.

Outra coisa relevante que acho que deveria comentar é que eu tive que extrair um dente. Foi o dente 26, o primeiro molar superior esquerdo. Isso significa que não foi um siso, foi um dente normal, e um dos que a gente mais usa na mastigação. Tudo isso porque ele estava fraturado em uma parte muito profunda, chegando na raiz do dente. E como isso aconteceu, você pergunta. Não tinha cárie, não tinha nada. Assumo que foi resultado de uma restauração que fiz em 2020—que foi traumática, aliás—, em que realmente senti que a broca foi um pouquinho fundo demais. Acho que era o caso de fazer um tratamento de canal e não apenas uma restauração, porque toda essa história rendeu não apenas uma fratura como também um cisto no céu da minha boca, que estava inflamado e doía consideravelmente. Agora tenho um espacinho bastante incômodo na boca e só posso mastigar com o lado direito enquanto espero a prótese ficar pronta.

No mais, continuo trabalhando, ficando altamente estressada com a rotina, tendo crises de choro, jogando The Sims 4 e assistindo Bluey. Viver é meio agridoce às vezes.