9 de junho de 2025

Me rehúso

Não sinto que tenho muito para falar, o que já disse aqui, num momento em que estava sofrendo abstinência do antidepressivo (e, claramente, com os pensamentos muito fora de ordem). Não diria que foi ruim. Esse tempo me ajudou a perceber melhor os efeitos do antidepressivo em mim, coisa que antes não percebia muito bem (anos usando medicamento, né. a gente esquece mesmo como era antes). Não sei dizer se estou melhor, se estou pior, só sei que estou retornando a respirar direito aos poucos e só Deus sabe onde vou parar a seguir.

O problema, acho, é justamente esse. A vida nos tira qualquer possibilidade de tentar algo diferente. Eu ando tão cansada, tão sem tempo, e a verdade é que minha cabeça está parando de funcionar. Eu estou acostumada a ter momentos em que meu cérebro simplesmente desiste de funcionar e eu só consigo ficar parada e chorar por horas, mas esses episódios tem se tornado cada vez mais frequentes (mesmo com antidepressivo).

A verdade é que eu não tenho mais certeza se eu serei um ser humano funcional algum dia. Não porque tem algo de errado comigo, mas porque a definição de "funcional" é tão distante do que eu consigo (do que a maioria de nós consegue, na realidade) que eu me pergunto se isso tá certo. Se era pra gente estar vivendo assim.

A gente sabe que não. A gente sabe que outras realidades são possíveis. Mas a vida nos tira não só o tempo e as possibilidades, como também a capacidade de organização e construção de meios alternativos.

Sinto que, atualmente, muitos de nós vivemos de esperança. Mas viver de esperança mata.

23 de maio de 2025

Obrigada, Vigotski

Abro os olhos há anos, mas não sinto que enxergo. As informações são confusas. Sei que isso é um tema recorrente: minha dificuldade em processar o mundo ao meu redor. Não há nada de errado com meus olhos (ok, um certo grau de miopia, mas o óculos corrige). Não há nada de errado com a minha audição. Nem com meu tato. Meu corpo parece ser completamente funcional. Não deveria ser tão difícil enxergar. Ouvir. Entender.

Mas é. É difícil porque a integração entre os sentidos está bagunçada. É difícil porque enquanto todos conseguem prestar atenção na aula, a luz que entra pela janela não me permite ver o quadro, o barulho do lápis sendo arrastado na folha não é só um som de fundo, mas algo que me desnorteia. E se, no meio de tudo isso, falam comigo, eu não consigo atender. Eu sei que estão falando comigo, mas eu estou completamente presa dentro de mim mesma, incapaz de me mover e interagir. Minha mente trava.

Começo a perceber que se talvez eu não ficasse tão dentro de mim mesma eu não seria tão burra. Tão ingênua. Tão incapaz de compreender o mundo. Não é óbvio que as coisas são como são porque elas são como são?

Não é.

Vigotski fala sobre a formação das funções psicológicas superiores (FPS), basicamente a parte da nossa cognição que nos diferencia da maior parte dos animais. Essas funções tem uma gênese social, o que significa que aprendemos elas a medida em que convivemos em sociedade. E faz sentido pensar que um cérebro que tem um processamento sensorial diferente do esperado também aprenda essas funções de forma diferenciada, ou até mesmo não consiga aprendê-las.

Começo a perceber que esse negócio de ficar tão dentro de mim mesma talvez não seja o problema. Talvez eu não tenha como ser diferente. Talvez o que tem que ser diferente é como o mundo chega até mim. Luzes mais brandas, sons mais suaves. Talvez assim eu consiga fazer sentido do mundo. Talvez assim eu possa finalmente entender.

Sinto que entendi. Em partes, ao menos. Mas o suficiente para que tudo deixe de fazer sentido. O suficiente para diferenciar estéticas vazias e rebeldia mal direcionada. O suficiente para entender que, às vezes, basta deixar o outro falar. Falar sozinho. Porque comigo esse discurso não vai colar.

É incrível como todo "defensor" do capitalismo realmente acha que consegue me convencer ou abalar minhas convicções ao afirmar que estou "usufruindo do capitalismo", que devo ser grata e ele de alguma maneira por eu ter acesso às coisas que tenho, ou tentam explicar tudo a partir da lei da oferta e demanda. Eles realmente acham que eu nunca ouvi isso antes? Eles realmente acham que eu nunca estudei von Mises? Eles realmente acham que esses argumentos apontam alguma hipocrisia da minha parte. E tudo bem, o mundo inteiro tenta reforçar isso. Não dá nem pra culpar o indivíduo.

Mas acho interessante lembrar que eu já ouvi tudo isso. Assim como você, eu ouvi isso a minha vida inteira. E se mesmo assim eu me posiciono do outro lado, é porque esses argumentos não me convencem. E se não me convencem, tem motivo.

Esse motivo se chama materialidade.

O que, para mim, acaba sendo uma dificuldade. Essa coisa de ficar tão dentro de mim acaba me prejudicando no sentido de compreender o mundo ao meu redor. Porém, por mais difícil que seja, a partir do momento em que eu tive um primeiro vislumbre do que isso significava, eu não consegui voltar atrás. E, de uns tempos pra cá, eu tenho aprendido a ler. Eu escrevo há mais de 15 anos, mas só agora estou aprendendo a ler.

Talvez, agora, eu consiga aprender outras coisas. Se eu tenho conseguido aprender a ler, eu também tenho conseguido aprender a ouvir, ainda que eu precise de acomodações para lidar com a interferência externa. E aprendendo tudo isso, talvez eu consiga aprender a enxergar.

E mesmo que as minhas funções psicológicas superiores tenham se desenvolvido de forma diferenciada, eu ainda posso interagir com o mundo, eu ainda posso entendê-lo, eu ainda posso mudá-lo.

Obrigada, Vigotski.

7 de maio de 2025

Esquartejamento suspenso

Começa como uma névoa. Momentos em que a imagem se torna difusa nenhuma forma ou linha é precisa o bastante para compreender o que realmente está à frente. O caminhar é incerto e, por vezes, é possível ter um vislumbre da realidade. Como aquele breve momento em que se acorda de noite, sem se ter certeza de onde se está, sem saber ao certo se está tudo bem, mas aos poucos o quarto vai se tornando visível e, quando finalmente é possível se orientar, o sono se sobrepõe novamente. Ao perceber esse padrão, esses momentos se tornam mais como quando se consegue colocar a cabeça pra fora d'água e puxar o ar enquanto luta para não se afogar. Desespero. A consciência se torna um desespero.

É quando eles vêm e me puxam por todos os cantos, quando me arrastam de volta para seus esconderijos e me convencem que aquilo é meu lar. "Volte para casa", eles sussuram, mas esquecem que casa é um lugar no qual eu nunca me senti à vontade. Há também os que me puxam para fora, que não me arrastam apenas até o umbral, mas seguem me puxando para a estratosfera, também tentando me convencer de que aquele é meu lar. Mas todos, sem exceção, me tiram de mim. Me afastam de mim, me impedem de mim, me arrancam de mim.

E no fim eu não sou, não existe ar para respirar, ela não para de gritar no meu ouvido, e eu preciso gritar por ela, mas ninguém gosta quando eu grito por ela, e eu não gosto de gritar por ela, mas eu não posso gritar por mais ninguém, e eu não posso gritar de forma alguma.

Não há lar, não há névoa, não há água ou afogamento. Não tenho membros, nem olhos, e não posso falar. Se existe um centro, um ponto ao qual tudo converge, eu não consigo achar. Flutuo. Eu não estou aqui.